Ciclocittà

Moça de bom gosto e elegância que é, minha amiga Mariela ficou encantada, na já encantadora Toscana, com o fato de ter visto muitas bicicletas. O pessoal lá as usa para quase tudo e não se preocupa em ter os modelos mais modernos de bike. Apelam, sim, para o clássico, que aliás, nunca tem erro. Abaixo, a cidade de Greve in Chianti, Itália.

foto: Mariela Castro

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Raindrops Bikedrops

Paul Newman e Katharine Ross no adorável Butch Cassidy & Sundance Kid, de 1969. Não lembro de muitas coisas tão charmosas quanto um homem dando carona à sua namorada no cano da bicicleta. Na cidade onde passei parte da minha infância/adolescência, era sinal de proteção, virilidade, galanteio. Hoje é mais fácil encontrar quem veja mais virilidade na potência do motor do carro (normalmente os tunados ou os SUV) que na graça de seu próprio corpo conduzindo a bicicleta. Acabou o tempo do charme.

Audiência Pública

Afinal eu fui. E vi os ciclistas noturnos do Poa Bikers marcando presença no plenário da Câmara de Vereadores de Porto Alegre, com seus capacetes, suas luzinhas e suas lindas bikes. E vi os representantes dos demais movimentos ciclísticos da cidade, meio perdida por não saber quem era quem. Vi o Poti Campos, jornalista que assina a coluna sobre Bikes no jornal Zero Hora e os vereadores Mauro Zacher e Beto Moesch. Todos, à sua maneira, defenderam brilhantemente a necessidade premente da implantação do Plano Diretor Cicloviário de Porto Alegre, que foi apresentado pelo prefeito José Fogaça ao presidente da Câmara, Sebastião Melo, na tarde de ontem. Plano esse que nos foi apresentado pelo arquiteto Reglo Ferrari, da prefeitura, contemplando seus objetivos e necessidades.

Mas quem realmente tocou meu coração foi um senhor muito eloqüente, de cabecinha branca, membro da Associação de Usuários do Parque Farroupilha, que disse que, mais que lutarmos pela implantação de uma malha cicloviária e necessários equipamentos como bicicletários, semáforos, faixas, etc, o pessoal precisa é “por a magrela na rua”, para que todo mundo veja que, sim, há demanda para que essas obras sejam implementadas.

Ele disse tudo o que eu acho. Cidades como Portland, nos Estados Unidos, nem tem muitas ciclovias, mas tem um negócio maravilhoso e simples, chamado “tráfego compartilhado”, que é basicamente o sujeito que está no carro respeitar a circulação daquele que está sobre a bicicleta, especialmente pelo fato de que o ciclista está fisicamente mais vulnerável. É o grande respeitando o pequeno, filosofia simples e de grande poesia que infelizmente é praticada aqui totalmente ao contrário.

No entanto, entendo que atualmente o mais barato e menos trabalhoso é implantar uma rede de ciclovias, pois o investimento em educação para o trânsito sempre parece ser, para o poder público, muito mais custoso emocionalmente (é preguiça) e demanda longo prazo para dar resultados.

Mas não tá morto quem peleia – virj, engauchei total. 😉

Seguindo o exemplo de Londres?

Às 19h de hoje, acontece na Câmara de Porto Alegre uma audiência pública sobre o Plano Diretor Cicloviário da cidade, que deve ser entregue hoje à tarde ao presidente da Câmara, Sebastião Melo, pelo prefeito de Porto Alegre, José Fogaça, e o secretário municipal de mobilidade urbana, Luis Afonso Senna. O fato é notíciado pela coluna Informe Especial, da Zero Hora, e pelo Jornal O Sul.

Aliás, também n’O Sul saiu matéria interessante intitulada “Quem quer se eleger em Londres tem que andar de bicicleta”, mostrando que a nova tendência dos políticos em campanha não é mais beijar criancinhas e sim dar o exemplo pedalando pelas ruas da capital inglesa. Segundo a matéria:

Trata-se, porém, de algo mais que jogo político e reflete uma tendência desses tempos em que o preço dos combustíveis ameaçam chegar à estratosfera e de alta preocupação ambiental: os britânicos estão realmente voltando os olhos para a bicicleta como uma solução de transporte (…)

(…) um em cada sete londrinos utiliza os veículos regularmente. Na última quinta-feira, foi a vez do anúncio de uma estratégia nacional de estímulo ao ciclismo, com um investimento de US$ 200 milhões do governo britânico, utilizando como piloto a cidade portuária de Bristol, que ganhará o primeiro esquema de aluguel de bicicletas, como já acontece em várias cidades européias.

Vamos pedalando na direção certa, nem que seja devagarinho. Ah… e se eu conseguir aparecer na audiência, amanhã conto para vocês como foi.

Barra Forte

A viagem foi inesperada e seu prolongamento, involuntário: ao levar uma cadelinha para a cidade de Barracão, no norte do Rio Grande do Sul, saindo de Caxias do Sul, na serra, o desconhecimento sobre a localização da cidade de menos de 10 mil habitantes nos fez, a mim e uma amiga, viajar por mais de quatro horas. Foram vários pedágios, buracos na estrada e paradas para o pipi (nosso e da Lilica). Passamos por São Marcos, Vacaria, Lagoa Vermelha, Cacique Doble e São José do Ouro até chegarmos a Barracão, última cidade antes da fronteira com Santa Catarina.

Fizemos essa loucura porque simplesmente o olhar de cachorro pidão da vira-lata Lilica nos conquistou. Mas a questão é a seguinte: em todas essas cidades que cruzamos, algumas delas de ruas feias e lamacentas e casas mal-cuidadas, outras com casinhas de madeira adornadas por janelas de cortinas bordadas e gente tomando chimarrão à porta, enfim, em todas elas, havia gente com suas Barra-Forte, Tropical e tantos modelos genéricos de mountain-bikes indo para o trabalho ou voltando dele, passeando, levando compras, crianças, paquerando as moças. Corroborando o post abaixo, sobre o crescimento da Caloi, nessas cidades a bicicleta é o que é: parte da vida.

O Brasil não esqueceu da Caloi

A Edição de hoje da Gazeta Mercantil traz na capa o empresário Eduardo Musa, atual presidente da nossa tradicional Caloi, que projeta para até o fim de 2008 um crescimento de 15% para o segmento de bicicletas, que representa 70% do negócio da Caloi (que produz também produtos para fitness).

A matéria tem dados interessantes sobre o mercado de bicicletas no Brasil: 

Em 2007, o país fabricou cerca de 5,4 milhões de bicicletas, volume 8% superior a 2006. O setor tem uma expectativa de 5% de crescimento para 2008, chegando a 5,6 milhões de unidades produzidas. Dessa produção, a maior parte é destinada ao consumo interno.

A frota brasileira é de 65 milhões de bicicletas, concentradas principalmente na região Sudeste (44%), seguidas pelo Nordeste (26%), Sul (14%), Centro-Oeste (8%) e Norte (8%).

No mundo, a produção anual é de mais de 120 milhões de unidades, liderada pela China. A India vem em segundo lugar e o Brasil vem em terceiro.

Em 2005, a China produziu 80 milhões de bicicletas e a India, 12 milhões.

Quem está acostumado à vida motorizada nas grandes cidades, não se dá conta de que, nas pequenas, o transporte é feito nas magrelinhas. O trabalho no campo, a ida para a escola e outras atividades cotidianas são ligadas de um ponto a outro pelo pedal. Esse pessoal tem MUITO a nos ensinar. E vida longa à “minha Caloi”.

Resumo da semana!

  • Vejam bem, não é porque faz dias que eu posto só imagenzinhas fofas (ainda que Hugo Chavez e Obama não sejam propriamente apetitosos), que eu estou de todo afastada do universo urbano-ciclístico e etc. É gripe, é pepino pra resolver, de modo que eu sinto falta de atualizar propriamente este blog.
  • Inclusive eu até convenci um colega jornalista a adotar a boa e velha (velha mesmo, pra evitar roubos) bicicleta para se deslocar para o trabalho. Nem o fato de que a redação dele fica em um morro conseguiu desencorajar o rapaz. E eu fico feliz. Um amigo em Curitiba também se animou a pedalar. É sinal que as pessoas não estão insensíveis ao seu redor. Curitiba, de onde eu me mudei faz mais de três anos, está com um trânsito cada vez mais caótico, acabando de vez com aquela imagem de qualidade de vida e cara de cidade do interior.
  • E não é porque eu não apareço, também, que as coisas deixam de acontecer. Em Porto Alegre, no último domingo lindíssimo de sol, teve passeio ciclístico em favor da preservação ambiental do morro do Osso, encabeçado pela Associação Ciclística da Zona Sul, sempre super atuante. Aliás, a ACZS poderia encabeçar a realização da Bicicletada mensal na capital gaúcha, já que eu nunca mais ouvi falar do evento em questão. Não lhes falta capacidade de mobilização.
  • Por último, a Palavra do Leitor de hoje, do Jornal do Comércio, foi deveras interessante: contestava o fato de o Museu Iberê Camargo, já citada neste blog, cujo logotipo é uma bicicleta desenhada pelo pintor, por incrível que pareça, não ter um bicicletário nem muito menos permitir que se prenda a bicicleta no seu amplo estacionamento. Vai entender…