A inutilidade das pernas

Uma parte da população das cidades, em dada hora do dia, despe-se de sua humanidade para entrar em simbiose com uma entidade chamada carro. Essa entidade lhes toma conta e, para exercer uma nova natureza incompatível à humana, assim como a água está para o óleo, o novo ser é inimigo mortal da função das pernas no transporte autônomo de pessoas. Motoristas, em simbiose com seus carros, os chamam “Leo”, “Viole(n)ta”, “Janjão”, beijam-lhes a lataria, dão-lhes banho de mangueira, dão polimento à sua pele metálica e dentro deles sentem-se quentes e seguros como no interior de um útero que, tal como uma verdadeira mãe, demora anos na tentativa de prendê-los naquela condição. O tal do cordão umbilical que impede a evolução da criança e sua independência e libertação da infância.

E o contrário também acontece. Ao carro se dá o status de pessoa mas a suposta pessoa que ele contém vira máquina. Precisa ser abastecida (muitas vezes, com álcool), perde a faculdade da subjeção e, principalmente, a empatia para com tudo o que seja OUTRO. Seja outro carro, seja a rua, seja outra pessoa.

(Toda essa elucubração por causa do texto publicado na edição de hoje do Jornal do Comércio, de Porto Alegre, que colo abaixo).

Pedestres arriscam a vida nas ruas
por Juliano Tatsch

Basta circular pelas ruas de Porto Alegre para ver que educação e respeito às leis de trânsito não são os fortes dos nossos motoristas. É inegável também que os pedestres contribuem com a sua parcela de desrespeito às normas para que uma simples saída às ruas da Capital se transforme em uma verdadeira aventura, repleta de riscos.
Entretanto, há de se ressaltar que boa parte dos problemas e dos perigos existentes no trânsito da cidade não é causada por motoristas ou pedestres, e sim pelas deficiências no sistema viário. Três pontos de uma mesma avenida e um ponto de outra via, todos na zona Sul da cidade, são exemplos claros do modo como a Capital privilegia os veículos em detrimento dos pedestres.
A avenida em questão é a Cavalhada e os pontos em que o desrespeito ao pedestre é evidente são nas esquinas da via com as avenidas Campos Velho e Vicente Monteggia e com a avenida Otto Niemeyer. Quem está a pé e pretende atravessar a Cavalhada no sentido bairro-Centro, junto à esquina da Otto Niemeyer, tem de disputar o espaço com os veículos, na medida em que no cruzamento da Cavalhada com a Otto existem três sinaleiras que controlam o tráfego no local (uma na Otto no sentido bairro-Centro, uma na Otto no sentido Centro-bairro e uma na Cavalhada no sentido bairro-Centro). Não há nenhum momento em que as três sinaleiras estejam fechadas para os veículos, permitindo que o pedestre atravesse a via. Uma das três sempre está aberta e o pedestre tem de esperar o tráfego diminuir para atravessar ou se arriscar por entre os carros.
O mesmo ocorre no cruzamento que une as avenidas Cavalhada, Vicente Monteggia, Campos Velho e Nonoai. Quem está na esquina da avenida Nonoai com a Vicente Monteggia também tem de disputar espaço com os veículos, pois sempre há trânsito no local. Isso porque uma das três sinaleiras (localizadas na esquina da via com a Vicente Monteggia, na esquina da Cavalhada com a Monteggia e na esquina da Campos Velho com a Cavalhada) está sempre aberta. A situação se repete com quem quer atravessar a Cavalhada junto à esquina da Campos Velho.
As faixas de segurança para pedestres estão lá, entretanto, a pessoa que se arriscar a cruzar a via enquanto um carro vem em sua direção muito provavelmente ouvirá o estridente som de uma buzina ou os xingamentos do motorista. Ou as duas coisas ao mesmo tempo. Em Porto Alegre, nenhum motorista para o carro quando vê um pedestre andando sobre a faixa de segurança enquanto o sinal está verde, pois, afinal de contas, é a vez de ele passar e não de quem está caminhando. “Isso aqui é um problema muito grande. Além do tempo que se perde esperando uma oportunidade para atravessar, corre-se risco atravessando por entre os carros. Sempre tem um sinal aberto. É preciso uma solução urgente”, diz Bruno Vidal Lucas, 22 anos, morador da região há 15.
Durante os 20 minutos em que a reportagem do Jornal do Comércio esteve na esquina da Cavalhada com a Otto, na tarde de ontem, várias cenas perigosas puderam ser percebidas. Em uma delas, duas meninas esperaram por dois minutos e 20 segundos para atravessar a avenida Cavalhada e, mesmo assim, o fizeram correndo riscos, passando por entre os carros. A Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) foi procurada para se manifestar sobre o problema, mas não retornou os contatos feitos pela reportagem.

24/4/2009

 
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Copenhagen, city of ciclists

Mikael Colville-Andersen, do pioneiríssimo Copenhagen Cycle Chic, é o autor desse vídeo institucional feito para a capital dinamarquesa.

Magrela da moda

Via NY Times (em inglês, mas no Gata de Rodas tem o texto traduzido!), matéria que avalia a possibilidade de Nova Iorque de voltar a ser a Nova Amsterdã de seus primórdios (esse foi o primeiro nome da cidade), não pelo retrocesso histórico mas pelo crescimento do tráfego de bicicletas na cidade. Um dos modelos mais vendidos é o da tradicional e retrô bicicleta holandesa, que o pessoal anda importando aos montes. Segundo a matéria, o fato não decorre somente da qualidade das magrelas, já que estão em terra de Lance Armstrong e de marcas de excelência técnica, mas principalmente pelo fator “fashion”: pedalar com estilo – o holandês – está virando a prática favorita dos fashionistas de plantão.

Nas cidades brasileiras onde o trânsito de bicicletas está crescendo em maior ou menor grau – uma delas Porto Alegre – os ciclistas têm driblado a falta de oferta nesse mercado nas bicicletarias: uma bicicleta peladinha ganha bagageiro, paralama, farois e lanternas de led ou mesmo dínamo, à guisa de suprir o que poucos modelos nacionais oferecem. Mesmo a lindíssima Caloi City Tour não vem completinha de fábrica.

E para você? Qual modelo mais lhe apetece? Qual você usa? Qual gostaria de ter?

Obrigada ao Ricardo pela indicação! 🙂

Todas as tribos

Os ciclistas passam a ocupar seu espaço na rua, seu lugar de direito e de prazer, e nós também temos nossas tribos: seja um mountain-biker, com seus pneus largos e suspensões adequadas tanto à montanha quanto ao alfasto irregular; seja um colorido velocista e suas formas aerodinâmicas, seja o pessoal das cruisers e choppers e seja, enfim, o pessoal que pedala chique. 😉 A rua tem espaço para quem quiser transformar o transporte em algo mais respirável, mais prazeroso, e com uma rapidez que não tem a ver com pressa.

E eu vi esse filme muito legal, da fabricante de pneus Hutchinson, no “Pedalando e Olhando

Páscoa com Sr. Coconut

Sr. Coconut y su orchestra prestaram uma singela homenagem a “Tour de France”, a canção veloz e ciclística do Kraftwerk, com uma versão muito peculiar. Mas sem deixar a bicicleta de lado.

Bom feriado!