Primeira bicicletada jardinária

Funciona assim: cada um vem de bicicleta e traz o que pode, além de sua boa vontade: sementes e mudas, pás e ancinhos, bambus e ripas de madeira. Trocamos informações singelas: sementes de guapuruvu precisam raspadas para serem “ativadas”, estimulando uma germinação mais rápida; o guaco é trepadeira e pode crescer bem emaranhado em cerca ou portão; alfaces, rúculas e afins precisam ser constantemente regadas; as araucárias, rainhas, não podem ser cortadas. São protegidas, na condição de tesouro ameaçado (já que são tão poucas e majestosas nas serras da região Sul).

Em seguida, faz-se um pequeno levantamento dos lugares onde é necessário um pouco de verde – não é preciso levar um print do google maps, nem mesmo um papelzinho, pois todos os têm na cabeça: não é incomum notar canteiros pelados, plantas secas, lixo e ferrugem no lugar originalmente destinado a uma praça. Ali nos dirigimos, pedalando e carregando nossas ferramentas e mudas. Um se encarrega de afofar a terra; outro, de cavar. É surpreendente como, em meio a uma terra que parecia neutra, pode até surgir uma minhoca, um inseto passeador, um pinhão (Há vida ali? Por que ela não foi percebida antes?). Em seguida, transplanta-se a muda, prende-se uma estaca e está pronto.

Seguimos caminho por outros canteiros: outra muda no canto de um playground; uma trepadeira na base de um muro pichado; flores num barranco de viaduto. A essa altura, crianças já brincaram de terra conosco,  velhinhas já conversaram e falaram do tempo das flores, passado há muitas estações e revivido na esperança dos olhos atentos. A florista do Parque da Redenção redime a natureza e também nos dá vasinhos a serem transplantados, enchendo a cidade das cores que ela já tem mas que não costumamos ver quando estamos em nossos carros, apartados do mundo.

Fotos: Diego de Lima

Anúncios

Baixe o Plano Cicloviário!

Nova seção no Bike Drops: agora você tem acesso, para download, ao Plano Cicloviário de Porto Alegre, que regulamenta e torna obrigatória em Porto Alegre a implantação de ciclovias, bem como a adoção de uma política que beneficie todo o trânsito a partir do compartilhamento das ruas com todos os tipos de transporte.

Aqui, você poderá baixar a Lei Complementar 626 na íntegra, bem como o Resumo Executivo do Plano, que contém os estudos preliminares que nortearam a confecção da Lei, com dados e estatísticas. O conhecimento das possibilidades legais que temos na cidade é essencial para que façamos as cobranças certas, com base no que já é obrigação do Município.

Compartilhando espaços

Vídeo lindaço da Massa Crítica de julho. Muita gente participou e vai participar da próxima, que rola essa sexta-feira às 18h45, saindo do Largo da Epatur. Por um trânsito que inclua todos os modais de transporte. Por uma cidade que circule e não se paralise fechada no senso-comum.

Pedale todos os dias, comemore uma vez por mês!

O mau-gosto e as provocações infundadas

Causou polêmica entre os cicloativistas o texto em que a colunista da Folha de S. Paulo, Bárbara Gância, atacou a bicicletada e seus participantes por meio da imagem da jornalista Renata Falzoni. Os iniciais elogios à videorrepórter da ESPN Brasil viraram ataque à causa de Renata (e de todos os ciclistas, ativistas ou não). 

Houve muitas manifestações favoráveis à Renata, em vários blogs e no Twitter, mas acho que a mais relevante delas é a resposta da própria.

Réplica melhor não poderia ser feita. Sem nem considerar a deselegância da colunista da Folha com seu texto preconceituoso, a maioria das manifestações anti-bicicleta (e, por consequência, anti-ciclista, com generalizações e hostilidade) não leva em conta a dinâmica do mercado (já que a iniciativa pública e a vontade política frequentemente não se dobram à necessidade, mas à demanda): há demanda, cria-se uma oferta. O que se vê diariamente, tanto nas ruas de São Paulo quanto de outras capitais, é o aumento do número de ciclistas, reflexo de muitas coisas, inclusive do esgotamento natural da carrocracia, o que talvez não acontecesse se a população sempre tivesse tido pleno acesso a todos os modais de transporte. Um número maior de ciclistas nas ruas (e esse número vai aumentar muito mais) faz com que fabricantes de acessórios para ciclistas vendam mais; que mais bicicletas também sejam vendidas; que estabelecimentos instalem paraciclos para atender seus clientes ciclistas e que, lá no fim, o próprio governo atenda a essa demanda já consolidada construindo mais estrutura para o uso da bicicleta como meio de transporte.

Sobretudo, essa e outras manifestações soam como hostis à questão mais importante: a da liberdade individual. Mesmo com uma política que não prioriza nem o ciclista e muito menos o pedestre, estes dois agentes têm sua circulação e direito de ir e vir garantidos por lei. Não temos ciclovias, mas podemos estar na rua quando quisermos e sermos quanto quisermos e pudermos. Não há um número de ciclistas pré-determinados que possam circular por dia. Tampouco ferimos a liberdade do ir e vir de motoristas (ou de suas tentativas em meio aos engarrafamentos que eles próprios causam). Então por que a celeuma?

Por isso, ao ver gente ignorando até o viés mercantil da coisa, e também o da liberdade individual, mais esse discurso hostil me soa como fanático e, principalmente, ignorante e infundado.

Minha primeira Massa Crítica

Mesmo com mais de dois anos de Bike Drops (ou seja, tendo decidido por me transportar de bicicleta e feito isso com alguma regularidade), eu nunca tinha participado de uma Massa Crítica ou Bicicletada (são a mesma coisa, mas com nomes diferentes. Veja o que é).  Passei a pé pela bicicletada de maio em SP, vi o pessoal reunido, mas não tinha sido dessa vez. Nas edições portoalegrenses, o fato de a concentração ser longe demais do meu trabalho, nunca deu tempo de chegar até lá. Enfim. Deu tudo certo nessa sexta-feira, também pelo clima: mesmo no rigoroso inverno que estamos atravessando, o padroeiro São Pedro nos deu calor e céu estrelado.

Então, agora, mais que da vontade de participar, eu vou contar da sensação de tê-lo feito: se pedalar sozinho é um ato de coragem em Porto Alegre, pedalar na Massa Crítica é um ato de liberdade. Em grupo, a gente também se sente mais seguro, em parte porque os motoristas, para quem em geral o ciclista é invisível, percebem você de maneira inevitável. O trânsito, aparentemente, pode ficar mais lento por causa do grupo de ciclistas, mas não: é a consciência dos motoristas que aflora de repente, pois não podem nem devem andar na velocidade que querem, pois ciclistas e pedestres existem, pois a vida existe para ser vivida fora da “bolha” de metal.

Algumas reações são violentas, principalmente as dos motoboys, naturalmente estressados por prazos e pela própria tensão do trânsito. Alguns motoristas xingam. Outros sorriem. Outros buzinam simpáticos. Nos pontos de ônibus também. Sorrisos. Sorrisos de volta. Distribuí uns panfletos nas paradas de ônibus, para que aquele pessoal que vai enfrentar o T3 cheio não queira ir de carro: que existe outra opção e ela, aos poucos, está coexistindo com carros, ônibus, motocicletas. Isso é multimodalidade.

Participaram da Massa Crítica de julho mais de 60 pessoas. E todo mundo gostou e achou ótimo, mesmo sendo uma única vez no mês. Em cidades como Utrecht, na Holanda, esse volume de gente é muito maior. E diariamente. Em Portland, nos Estados Unidos, também, e não há muitas ciclovias por lá. O espaço é compartilhado. O importante é que tanto a sociedade quanto os governos respeitem o que já está previsto em lei.

Artigo 58 do Código Brasileiro de Trânsito: “Nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores”.