A bela e a bela

Alinne malemolente e a bici pedalante. Pra quem tá preso no trânsito, “the solution to a dilemma”.

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Aula de “des-jornalismo”

Deparei, nesta manhã, com uma matéria que consta no site do Correio do Povo, um dos mais tradicionais jornais gaúchos: “Sem o apoio da EPTC, Massa Crítica tranca ruas do Centro da Capital“. Em sua linha de apoio, a matéria  diz que o evento é contra o uso de automóveis e, no texto, dá a entender que o passeio ocorre em protesto ao atropelamento de ciclistas feito pelo bancário Ricardo Neis, que está respondendo, em liberdade, a 17 tentativas de homicídio.

Acredito que um jornal pode dar o enfoque que quiser a respeito de uma questão. Cada jornal tem sua linha editorial. O que é uma vergonha é a matéria não ter ouvido “o outro lado”, ou seja, conversado ontem com participantes do passeio, que pudessem fornecer um outro ponto de vista sobre a questão.

O próprio Correio do Povo feriu o princípio do jornalismo que qualquer repórter iniciante deve saber, o de ouvir os dois lados de um tema. Eis o que diz a matéria: “Na época do acidente, os participantes relataram que a causa busca apresentar à sociedade uma alternativa para o uso de carros. Eles admitiram não alertar a Brigada Militar, nem a EPTC, sobre as chamadas “bicicletadas””. No passeio de ontem, que motivou a jornal a ouvir o diretor de Trânsito da EPTC, os ciclistas participantes não foram ouvidos. O autor da matéria (será que é jornalista? Se for, me dá vergonha da minha própria profissão) provavelmente também não sabe que a Massa Crítica acontece em diversas partes do mundo mensalmente, e não é um evento contra os carros, mas sim a favor da bicicleta, no que reside uma diferença muito grande.

Outros veículos de diversas cidades brasileiras (como a Gazeta do Povo, de Curitiba ou mesmo a Rádio Fandango, de Cachoeira do Sul) em que a bicicletada acontece já amadureceram para o cicloativismo mas, sem ouvir todos os lados de uma questão, o Correio do Povo acaba sendo a voz de apenas um segmento da sociedade: aquele que constrói as cidades em prejuízo ao transporte coletivo e a favor de obras que só estimulam o uso do carro individual (já que, na prática, a maioria dos carros é ocupado por apenas uma pessoa), da poluição e de um modelo nocivo de planejamento urbano, já abandonado nas cidades inovadoras.

Pronto, falei

O que vocês achariam se eu dissesse que, em 2010, somente no Brasil, caíram 188 Boeings 737 sem NENHUM sobrevivente? Imaginem o drama das famílias, o caos na aviação civil, o medo de voar. Pois bem: essas 40.610 pessoas morreram sim, mas não em acidentes aéreos. Elas tiveram suas vidas tiradas em “acidentes” de trânsito no Brasil no ano passado.

Por isso só tenho a aplaudir a decisão do STF em transformar em CRIME a prática de dirigir embriagado. E aplaudo também considerarem a possibilidade de fazer criminosos que provocarem incidentes graves (por embriaguez ou infrações comprovadas) ressarcir ao INSS os danos que causarem. Pensem nisso e em todas as infrações cometidas diariamente: as ultrapassagens pela direita, o não-respeito à faixa de pedestres, a cerveja inocente, os 10km/h além do limite da via: são eles, além de absurdos ainda piores, que fazem com que o Brasil apresente números de guerra no trânsito. Responsabilidade por nossos próprios atos salvam vidas.

E, desculpem: mas justificar nossos erros pelos erros de outros motoristas (“todo mundo fura o sinal vermelho, ele não usa capacete, ele não atravessa na faixa”), pedestres e ciclistas é coisa de quem não assume a idade adulta que deveria ter.