Aula de “des-jornalismo”

Deparei, nesta manhã, com uma matéria que consta no site do Correio do Povo, um dos mais tradicionais jornais gaúchos: “Sem o apoio da EPTC, Massa Crítica tranca ruas do Centro da Capital“. Em sua linha de apoio, a matéria  diz que o evento é contra o uso de automóveis e, no texto, dá a entender que o passeio ocorre em protesto ao atropelamento de ciclistas feito pelo bancário Ricardo Neis, que está respondendo, em liberdade, a 17 tentativas de homicídio.

Acredito que um jornal pode dar o enfoque que quiser a respeito de uma questão. Cada jornal tem sua linha editorial. O que é uma vergonha é a matéria não ter ouvido “o outro lado”, ou seja, conversado ontem com participantes do passeio, que pudessem fornecer um outro ponto de vista sobre a questão.

O próprio Correio do Povo feriu o princípio do jornalismo que qualquer repórter iniciante deve saber, o de ouvir os dois lados de um tema. Eis o que diz a matéria: “Na época do acidente, os participantes relataram que a causa busca apresentar à sociedade uma alternativa para o uso de carros. Eles admitiram não alertar a Brigada Militar, nem a EPTC, sobre as chamadas “bicicletadas””. No passeio de ontem, que motivou a jornal a ouvir o diretor de Trânsito da EPTC, os ciclistas participantes não foram ouvidos. O autor da matéria (será que é jornalista? Se for, me dá vergonha da minha própria profissão) provavelmente também não sabe que a Massa Crítica acontece em diversas partes do mundo mensalmente, e não é um evento contra os carros, mas sim a favor da bicicleta, no que reside uma diferença muito grande.

Outros veículos de diversas cidades brasileiras (como a Gazeta do Povo, de Curitiba ou mesmo a Rádio Fandango, de Cachoeira do Sul) em que a bicicletada acontece já amadureceram para o cicloativismo mas, sem ouvir todos os lados de uma questão, o Correio do Povo acaba sendo a voz de apenas um segmento da sociedade: aquele que constrói as cidades em prejuízo ao transporte coletivo e a favor de obras que só estimulam o uso do carro individual (já que, na prática, a maioria dos carros é ocupado por apenas uma pessoa), da poluição e de um modelo nocivo de planejamento urbano, já abandonado nas cidades inovadoras.

3 Respostas

  1. “(…) no texto, dá a entender que o passeio ocorre em protesto ao atropelamento de ciclistas feito pelo bancário Ricardo Neis, (…)”
    Não foi o que entendi da matéria. Poderia, então, chamar o teu texto de uma aula de “des-entendimento”.
    Veja bem, o subtítulo diz “Cerca de mil ciclistas participaram da manifestação contra o uso de automóveis”. No primeiro parágrafo está lá: “Há nove meses, integrantes do grupo foram vítimas de atropelamento em massa promovido pelo servidor do Banco Central Ricardo Neis (…).
    O segundo parágrafo fala que nem EPTC nem Brigada foram alertadas e, também, que “integrantes do movimento foram procurados, mas não atenderam às chamadas de celular”. E continua: “Na época do acidente, os participantes relataram que a causa busca apresentar à sociedade uma alternativa para o uso de carros. Eles admitiram não alertar a Brigada Militar, nem a EPTC, sobre as chamadas “bicicletadas”. Ou seja, está dita a razão do movimento e explícita a confissão.
    O terceiro parágrafo conta o acidente de fevereiro e a última frase explica que “O evento na Capital se repete uma vez por mês, sempre na última sexta-feira”.
    Não é com mania de perseguição que o movimento vai angariar simpatia.

    • Oi Aldo…
      se é mania de perseguição, não é de movimento algum. É pessoalmente minha (afinal o blog é meu e não do “movimento”). Eu que não gostei do tom da matéria e eu que entendi o que passou pelo meu filtro. Cada um tem o seu. Minha implicância foi com, nessa matéria específica, nenhuma das pessoas que estavam no passeio ter sido ouvida. A principal aula de des-jornalismo, na minha opinião, reside ali. A prática do jornalismo não implica ouvir sempre os dois lados de uma questão? O que se fez foi requentar uma informação dada por um participante à época do atropelamento – a declaração do diretor de trânsito da EPTC também foi requentada? Se foi, publicou-se uma matéria requentada, o que também é mau jornalismo). Depois disso, a EPTC não só foi avisada como acompanhou alguns passeios inclusive com a ajuda de ciclistas no bloqueio de ruas laterais ao trajeto. Como a matéria cita, o evento é tradicionalmente realizado uma vez por mês com o conhecimento dessas autoridades.
      Também é contestável a abordagem. O que vejo correntemente na mídia gaúcha é que tudo o que é alheio ao automóvel é que causa engarrafamento (chuva, passeatas, shows, feriados), quando o engarrafamento diário (e não mensal) é causado pura e simplesmente pelo excesso de automóveis nas ruas.
      Enfim, mais uma vez, reitero que o mal-estar que a matéria causou é meu. Se outras pessoas que frequentam a massa crítica sentem-se assim ou não, têm toda a liberdade de expressar-se a favor ou em contrário. De toda forma, criticar, opinar e pressionar são maneiras de fazer pessoas pensarem e debaterem, coisa que está acontecendo entre você e eu neste momento. Fico feliz por isso.🙂

    • Acrescentando: a linha de apoio do título coloca: “Cerca de mil ciclistas participaram da manifestação contra o uso de automóveis”, e posteriormente “a causa busca apresentar à sociedade uma alternativa para o uso de carros”. Não concorda que são duas coisas que, embora parecidas, são diferentes? Minha posição pessoal é a de que há alternativas ao uso de carros, portanto, não é preciso utilizá-lo para trajetos curtos em todos os dias da semana; outros modais de transporte, usados em conjunto com o carro, oferecem menos impacto ambiental, geram menos engarrafamentos entre outros benefícios. No entanto, o planejamento urbano é feito em prejuízo a essas outras alternativas e esse é um dos pontos em que muitas pessoas que vão ao evento acredita. Na verdade ouso dizer que de fato poucas pessoas na massa crítica são contra os carros, mas apenas o jeito que se os usa, com o agravante da violência no trânsito, que vitimou mais de 40 mil pessoas no Brasil em 2010. Ou seja, se no passado um ciclista da massa crítica foi ouvido pelo mesmo veículo e disse que o movimento busca uma alternativa ao uso de automóveis, colocar, em um local de maior destaque do texto, que o movimento é contra automóveis, é distorcer, no meu entendimento. Enfim.

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