Da liberdade de cair fora

“Não há maior poder que a liberdade de cair fora” (Harriet Rubin)

Kerouac de malas prontas para cair fora.Há alguns dias, ganhei, de amigo secreto, o manuscrito original de “On the road”, publicado pela L&PM. Diferente da versão lançada em 1957, que conta as aventuras de Sal Paradise e Dean Moriarty, no manuscrito estes ainda são, respectivamente, o próprio autor Jack Kerouac, seu melhor amigo, Neal Cassady, e uma das esposas deste, LuAnne Henderson (no lugar da Marylou da ficção).

O que a viagem do trio, no automóvel Hudson 1949 pelas estradas estadunidenses, tem a ver com bicicleta?

Bem, vou tentar elaborar. Em 1947, Jack Kerouac podia, por mais que isso pegasse mal para um, er, rapaz de família:

– viajar de carona e em trens clandestinos com toda sorte de andarilhos e vagabundos;
– viajar quilômetros sem um centavo no bolso e poucos víveres, contando com a partilha de alimentos, bebida e cigarros entre companheiros de viagem e providenciando aos outros quando tivesse mais posses;
– não ter constrangimento em arranjar empregos braçais;
– viver o presente sem o menor pudor, tentando chegar ao dia seguinte por maior que fosse o contratempo ou dissabor.
– desprezo ante o que o status quo da época considerava como regra moral – embora houvesse o código moral do companheirismo.

O impacto da narrativa de Kerouac e dos outros beatniks foi tão forte na conservadora sociedade estadunidense, que, sim, foi uma “péssima influência” à juventude (e alarmava o poder constituído, na época em que surgiu o senador McCarthy), proporcionando o estabelecimento da contracultura, do movimento hippie e de um monte de ondas contestadoras que, bem, acabaram morrendo na praia. Na verdade, minha interpretação é a de que o capitalismo se apropriou desse grito de liberdade e o transformou tão somente em novas possibilidades de consumo (afinal, “cada um tem seu estilo, mas a Renner tem todos”). Em suma: liberdade? tem, mas acabou. Escapar do “sistema” é quase impossível, pois tudo envolve consumo, rastreamento, prestação de contas às autoridades, aos empregadores e até a amigos e conhecidos, que acompanham cada passo nosso nas redes sociais.

No Brasil, especialmente, entre outras coisas, estamos confinados ao “jeitinho” de todos os dias, à gestão pública travada e de rabo preso às negociatas do parlamento, ao planejamento urbano totalmente voltado à circulação dos automóveis (em prejuízo a todos os outros integrantes do trânsito, gerando 40 mil mortes ao ano) e à eugenia da publicidade, que tanto diz que “brasileiro é apaixonado por carro” (ou eu sou dinamarquesa e não sabia), quanto confere aos seus usuários desde pinto grande e juventude e ruas eternamente desimpedidas e, ah, a tão sonhada liberdade, possivelmente apropriada das viagens de Kerouac e que, puxa vida, não tinha nada a ver com carro, mas pura e simplesmente com o prazer de cair fora.

Daí que, nesse contexto, a adoção da bicicleta como meio de transporte – e, inevitalmente, de ícone de consumo e cultura – é que, junto com outras manifestações que estão irrompendo por aí, constitui o “cair fora” da nossa geração de brasileiros e, talvez, avolume o ponto de mutação explicado e anunciado pelo Fritjof Capra. É viajandice minha, claro, mas tanto os titereiros quanto os títeres da nossa sociedade estão realmente incomodados com os gatos pingados das bicicletadas (pingos que estão virando tempestade), com os beijos gays vistos não nas novelas, mas nas ruas, com as gordas, os feios, as vadias, gente e gestos que desfilarão mesmo diante de olhos e ouvidos tapados. É esse incômodo que me dá a esperança da transformação e de que vamos poder, por escolha individual e até coletiva, cair fora. Pé na estrada.

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