Ciclorretrospectiva

2011 tem sido um ano ímpar para a bicicleta no Brasil, pela visibilidade que o tema ganhou no noticiário, nas redes sociais, e até mesmo nas ruas e seus espaços de discussão. Aconteceu de tudo: foram fatos lamentáveis que trouxeram à tona o descaso do poder público e a desatenção da mídia aos usuários de bicicleta e declarações infelizes de autoridades e (pseudo) formadores de opinião. Mas também foi a presença, no Brasil, de personalidades importantes para a difusão do uso da bicicleta, implementação de políticas relevantes, fortalecimento do cicloativismo e, sobretudo, uma mudança de postura da mídia de maneira geral, abordando, de maneira mais responsável, a necessidade da transformação do modelo de planejamento urbano para formatos mais humanos e sustentáveis. E, pura e simplesmente, mostrando a bicicleta como um elemento do dia a dia, e o ciclista como um cidadão com direitos, necessidades e características interessantes e atraentes. Confiram neste longo post e nos próximos textos, alguns dos fatos mais importantes do ano.

– Em 25 de fevereiro, Ricardo José Neis, funcionário do Banco Central, acelerou seu automóvel contra cerca de 150 ciclistas que participavam da Massa Crítica em Porto Alegre. Foi indiciado por 17 tentativas de homicídio e aguarda julgamento em liberdade. As imagens chocantes correram o mundo e a hashtag #naofoiacidente esteve entre os trending topics do Twitter por cerca de três dias, em resposta à abordagem inicial da imprensa, que tratava o caso como “acidente” e não como uma tentativa deliberada de assassinato. Ciclistas fizeram manifestações em solidariedade aos porto-alegrenses em diversas cidades no planeta (Buenos Aires, Paris, Rio de Janeiro, São Paulo, Madri e até São Francisco, o berço da Massa Crítica) e a imprensa mundial relatou o fato com perplexidade. A partir de então, a Massa Crítica de Porto Alegre, que reunia cerca de 150 ciclistas a cada mês, passou a reunir de 300 a 500 ciclistas mensalmente.

– Em 2 de junho, o prefeito de Copenhague, Frank Jensen, pedalou em São Paulo fora do horário de pico e declarou: “Eu sentiria medo de andar de bicicleta todos os dias em São Paulo. Não me sinto seguro dividindo espaço com os carros. É muito difícil andar de bicicleta aqui”. Também disse que “Copenhague era assim 30 anos atrás e nós investimos muito para tornar a bicicleta um meio de transporte fácil e seguro.”

Onze dias depois, em 13 de junho, o ciclista Antônio Bertolucci, presidente do conselho da empresa Lorenzetti, morreu ao ser atropelado por um ônibus em São Paulo. O motorista do veículo disse que não viu o ciclista por estar em um ponto cego. Por quê não foi acidente?

– Criador do termo “cycle-chic” e do blog homônimo (inspirador de centenas de outros blogs de moda+bikes pelo mundo, que ajudaram a popularizar o uso da bicicleta no cotidiano), o dinamarquês Mikaël Colville-Andersen esteve em São Paulo em 9 de julho para o Fórum Semana do Ciclista – Tendências, que contou também com o cicloativista Willian Cruz  e outros debatedores. Mikael também aproveitou para fazer amizade com a galera e prestou até um lindo tributo. No Rio de Janeiro, o fotógrafo também participou da “inauguração” do blog Rio de Janeiro Cycle Chic.

– O ex talking head David Byrne, autor dos Diários de Bicicleta, veio em julho para o Brasil e fez sucesso na FLIP e no Fórum Cidades, bicicletas e o futuro da mobilidade, apresentando suas impressões sobre o trânsito nas várias cidades do mundo por que pedalou e comentando como a bicicleta pode transformá-las. Update: Byrne também foi objeto de uma extensa e instigante entrevista na revista Trip de julho, edição extra só sobre a bicicleta.

– Uma ciclofaixa de 3,3 km foi inaugurada no bairro paulistano de Moema em 05 de novembro em fase de testes, e foi rejeitada por parte dos comerciantes do  bairro. Em declaração infeliz, a lojista Carol Maluf disse que suas clientes milionárias nunca andariam de bicicleta em saltos altos. Ciclistas aproveitaram a deixa e marcaram o evento “milionárias de bike”, que reuniu gente de salto alto e roupa social para prestigiar a nova estrutura cicloviária. Posteriormente, outros comerciantes passaram a dar descontos e incentivos a clientes ciclistas, de olho no potencial consumidor desse segmento.

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Ser cicloativista no Dia Mundial Sem Carro

Neste ano, pessoas comuns falam mais do Dia Mundial Sem Carro que no ano passado. A insistência dos cicloativistas tem seus méritos. Furando a bolha de conforto, os ativistas chatos fazem governos, empresas e população refletirem sobre um modelo de cidade ultrapassado.

Uma moça no Twitter disse hoje: “1a. vez vim trabalhar de bike (Ipiranga-Barra Funda). Foi divertido! Conheci várias pessoas! Preciso praticar +. #vadebike” Não só ela, mas também outras pessoas, que têm relação clássica de rejeição a ativistas em geral mudam, mesmo que aos poucos, e pregam hábitos melhores. É um começo. Hoje, o secretário municipal Valter Nagelstein (de Porto Alegre) deu um bom exemplo e foi de bicicleta ao trabalho (http://yfrog.com/ke74tsrj). Se todos os outros gestores de governo fizerem o mesmo, muito há de melhorar.

Para 2012, a Prefeitura de Porto Alegre poderia colocar mais ônibus nas ruas e restringir estacionamentos para a população aderir, a exemplo do Rio de Janeiro e do governo do Estado de São Paulo, que aumentou a frequência dos trens metropolitanos. Uma prova de que as mentalidades dos gestores públicos podem estar começando a mudar é que a Prefeitura de Porto Alegre usou o termo “bicicletada” para o passeio que promoveu o início das obras da ciclovia da Av. Ipiranga, expressão essa criada pelos cicloativistas de São Paulo anos atrás.

Mesmo com a heterogeneidade de qualquer movimento social, o cicloativismo ajuda a mudar os paradigmas da mobilidade no país. A necessidade de abandonar o atual modelo de mobilidade, centrado no automóvel, tem a adesão de pessoas comuns, que transcendem o cicloativismo. Tachar cicloativistas como “esquerda” ou “direita” ou “anarquistas” é um conceito ultrapassado. Pessoas enxergam demandas urgentes, conflitos que atingem a todos. Todos somos obrigados a arcar com os engarrafamentos e a poluição provocada pelos automóveis, independente de filiação política ou identificação ideológica. Questionar esse e qualquer status é exercer a liberdade de ser cidadão.

Feliz Dia Mundial Sem Carro a todos!

O mau-gosto e as provocações infundadas

Causou polêmica entre os cicloativistas o texto em que a colunista da Folha de S. Paulo, Bárbara Gância, atacou a bicicletada e seus participantes por meio da imagem da jornalista Renata Falzoni. Os iniciais elogios à videorrepórter da ESPN Brasil viraram ataque à causa de Renata (e de todos os ciclistas, ativistas ou não). 

Houve muitas manifestações favoráveis à Renata, em vários blogs e no Twitter, mas acho que a mais relevante delas é a resposta da própria.

Réplica melhor não poderia ser feita. Sem nem considerar a deselegância da colunista da Folha com seu texto preconceituoso, a maioria das manifestações anti-bicicleta (e, por consequência, anti-ciclista, com generalizações e hostilidade) não leva em conta a dinâmica do mercado (já que a iniciativa pública e a vontade política frequentemente não se dobram à necessidade, mas à demanda): há demanda, cria-se uma oferta. O que se vê diariamente, tanto nas ruas de São Paulo quanto de outras capitais, é o aumento do número de ciclistas, reflexo de muitas coisas, inclusive do esgotamento natural da carrocracia, o que talvez não acontecesse se a população sempre tivesse tido pleno acesso a todos os modais de transporte. Um número maior de ciclistas nas ruas (e esse número vai aumentar muito mais) faz com que fabricantes de acessórios para ciclistas vendam mais; que mais bicicletas também sejam vendidas; que estabelecimentos instalem paraciclos para atender seus clientes ciclistas e que, lá no fim, o próprio governo atenda a essa demanda já consolidada construindo mais estrutura para o uso da bicicleta como meio de transporte.

Sobretudo, essa e outras manifestações soam como hostis à questão mais importante: a da liberdade individual. Mesmo com uma política que não prioriza nem o ciclista e muito menos o pedestre, estes dois agentes têm sua circulação e direito de ir e vir garantidos por lei. Não temos ciclovias, mas podemos estar na rua quando quisermos e sermos quanto quisermos e pudermos. Não há um número de ciclistas pré-determinados que possam circular por dia. Tampouco ferimos a liberdade do ir e vir de motoristas (ou de suas tentativas em meio aos engarrafamentos que eles próprios causam). Então por que a celeuma?

Por isso, ao ver gente ignorando até o viés mercantil da coisa, e também o da liberdade individual, mais esse discurso hostil me soa como fanático e, principalmente, ignorante e infundado.