Minhas bici-férias

Com mais de 20km de ciclovias, Santos e outras cidades do litoral paulista, beneficiadas por um terreno plano e a brisa do mar, estão apostando no uso da bicicleta como provedora de qualidade de vida e qualidade na mobilidade. A população aderiu: diariamente utiliza não só a malha cicloviária mas as vias públicas que lhes são de direito para ir trabalhar, passear, fazer compras, ir e vir, a ponto de causarem, em alguns pontos e horários, um engarrafamento de bicicletas (a considerar alargamento das vias destinadas às magrelas, né não?).

Santos também é minha cidade Natal, embora confesse que só fui usar a bici como transporte bem depois, em Bauru e em Porto Alegre. Esses são alguns registros que fiz das ciclovias e dos bicicletários abarrotados de beach-bikes (de baixo custo, super populares por lá), que estão no lugar certo: ocupando vagas outrora ocupadas por carros. Veja quantas bicis cabem onde caberia só um carro. E repense seus conceitos.

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Utrecht também no Brasil

A hora do rush de bicicletas na cidade holandesa de Utrecht faz muito sucesso entre os internautas. Mas o alto fluxo de bicicletas não é privilégio apenas dos Países Baixos ou da Dinamarca. Em pleno litoral de São Paulo, na divisa das cidades de São Vicente e Santos, é tanta bicicleta circulando que até dá engarrafamento. Será que não é hora de considerar o alargamento da ciclovia, além de uma sinalização melhor?

Afora, eu, que sou santista de nascimento, desejo para Porto Alegre o mesmo que acontece no litoral paulista.

O país da bicicleta

São Vicente-SP

Ibaté-SP

Crato-CE

Santos - SP

É o Brasil, em matéria bem interessante do site O Eco, da qual compilo a tabela das cidades brasileiras com mais ciclovias por habitante. Nas fotos, gente pedalando em Santos-SP, São Vicente-SP, Crato-CE e outras cidades de um Brasil que enxerga além da bolha do carro.

Capitais com mais quilômetros de ciclovias por habitante

Estado/Cidade/Pop. Estimada (2006)/Km de ciclovia/Centímetros por habitante

ES – Vitória – 317.085 – 23 – 7,25

AC – Rio Branco – 314,127 – 22,5 7,16

PR – Curitiba – 1.788.559 – 120 – 6,71

SC – Florianópolis – 406.564 0 25 – 6,15

SE – Aracaju – 505.286 – 28 – 5,54

Isso entre as capitais. Há muitas cidades de pequeno e médio portes em que existem tanto muitos quilômetros de ciclovia quanto gente para percorrê-las, como nas fotos.

No entanto, há aquelas capitais que precisam rever seu plano de mobilidade e aumentar a proporção de ciclovias por habitante. Porto Alegre, com 6 km de ciclovias para uma população de 1.440.939 em 2006, está entre elas, já que a proporção é de 0,42 cm de ciclovia por habitante.

 

Bike entrevista

Faz um tempão que estou para inaugurar essa seção no Bike Drops:  a rotina de quem anda de bicicleta em Porto Alegre, contada pelos próprios ciclistas. Hoje, quem narra suas pedaladas na cidade e, também, fora dela, é o fotógrafo Eduardo Seidl, que também é o autor das duas imagens que ilustram a entrevista.

foto: Eduardo Seidl

 

Bike Drops: Há quanto tempo tu usas a bike pro teu transporte regular?
Eduardo: Comecei a andar de bici na infância, como a maioria. Durante o segundo grau, em Caxias do Sul, comecei a ir ao colégio de bicicleta. Ficava uns 6 ou 7 km de casa. Nos finais de semana íamos para umas cachoeiras nas cercanias. Variava entre 30 e 40 km entre ida e volta. A bicicleta é uma ferramenta de autonomia, com custo baixíssimo. Alem disto tem o prazer de tu circular com a cara no vento, sentindo o movimento da cidade. Desta forma que está o transito de Porto Alegre, em poucos anos a cidade estará imóvel em certo trechos. O centro de Porto Alegre é um funil entupido.

foto: Eduardo Seidl

Bike Drops: Em que situações tu usas mais a bike? 

Eduardo: Teve épocas que inclusive às festas ia de bicicleta. É ótimo pedalar na noite, inclusive depois de um vinhozito, fica mais divertido. Não que esteja sugerindo a combinação bicicleta e álcool. Além do uso diário urbano, já usei a bicicleta também para viagens. Em 2004 fiz a Estrada do Mar, sai de Osório, por Morro Alto, ao amanhecer. Entrei para Capão da Canoa pela RS-407 e cheguei em Torres no final da tarde. Foram 90km com uma duas boas paradas. O vento estava contra, quero dizer contra a minha pessoa, inimigo íntimo. Em 2006, na companhia do Rafael “Pé” Arruda, fomos de Chuy a Montevideo pela Ruta 9 e 1. Foram seis dias no mês de julho, dos quais quatro choveram feio. Uma viagem destas tem que ser feita na hora que dá na idéia. Se ficar planejando esperando a melhor estação, não sai. Estávamos jantando e percebemos que ambos tinham uns dias disponíveis, umas 36 horas depois estávamos na estrada. O mais delicioso foi encontrar a provocação da placa de trânsito perto de Punta Balenas. Tenho mais uma vontade, que é descer a Rota do Sol, desde Gramado a Torres. Tirando as monoculturas de árvores, a paisagem é deslumbrante.

Bike Drops: Chegaste a trocar o carro pela bike? Se sim, como foi essa mudança?

Eduardo: Nunca tive carro próprio. Só os emprestados pelos familiares. Se não vou de bici uso transporte público, o problema é a demora. Entre o Bom Fim e o Centro, por exemplo, é mais rápido de bicicleta.

Bike Drops: Qual é o teu caminho no dia-a-dia? Quais as características? O que te chama a atenção, para bem e para mal?

Eduardo: Bom Fim, Cidade Baixa, Menino Deus, Cristal, Floresta, Auxiliadora, Petrópolis. Não são trajetos muito longos e nem muito acidentados. Sempre tem como contornar por um caminho menos inclinado. Como Porto Alegre não tem uma ciclovia funcional, a forma é se meter no trânsito. Com o tempo vi que o melhor é usar a pista. Ocupar é a forma de fazerem respeitar o teu espaço. É a forma também de tu fazer fluir o percurso. Usar capacete, mas não se fiar de que vão te dar a preferência como com uma moto, mão no freio sempre. Bicicletas são invisíveis para algumas pessoas.

Bike Drops: Tu notas alguma mudança (pra melhor ou pior)  no comportamento dos motoristas? Como é tua interação com eles?

Eduardo: O melhor contato que tu podes ter é no olho do motorista.  Certificar-se que ele te viu. Fora alguns casos vejo que as pessoas estão respeitando, ainda mais quando vêem que tu estás respeitado as regras de trânsito, como um veículo de transporte. A vantagem é que a bicicleta pode circular tanto em vias como espaços peatonais. Sempre respeitando a preferência do menor, a bicicleta é que desvia das pessoas. Assim como se espera que um carro não passe rente a ti em alta velocidade. 

Bike Drops: Que medidas achas que facilitariam o teu transporte diário?

Eduardo: A primeira medida que tomei foi presentear minha namorada com uma bicicleta. A questão das ciclovias é muito importante, mas pode ser compensada pelo respeito do motorista ao ciclista. Diminuir a quantidade de carros nas ruas. A pior preocupação é onde deixar a bicicleta em certos lugares. Eu procuro descobrir lugares amigáveis onde permitem deixá-la guardada, para não largar amarrada em qualquer calçada. Seria bonito ver prédios públicos ou de grande fluxo de pessoas, instalarem bicicletários. Seria um incentivo, além de uma forma de expressar respeito pela qualidade do ar, pelo bem estar da população. Mesmo que seja simplesmente pelo marketing institucional, como está na moda. Mercados, cinemas e centros de cultura seriam os primeiros a dar o exemplo. Da mesma forma que se sugere convidar o vizinho para uma carona ao trabalho, convide ele para ir de bicicleta. Talvez em companhia, esta pessoa toma coragem de experimentar um dia de bicicleta na cidade. Um carro a menos.

Quilômetros de poesia

Enquanto os lisboetas e seus turistas pedalam sobre o “Guardador de Rebanhos” do Alberto Caeiro, nós ouvimos palavras vazias da Prefeitura de Porto Alegre quanto à implantação de míseros 18 km de ciclovias prometidas já há dois anos (e que, pelo jeito, nem a proximidade de uma Copa do Mundo está fazendo desencantar). Ao contrário, o número de carros só aumenta em detrimento da necessidade de compartilhar espaços.

O video visto no site Copenhagenize me faz sonhar com situações melhores, assim como Fernando Pessoa me faz sonhar com o Tejo.

Parece mentira

O video acima, queridos, nem parece verdade. Rio de Janeiro é outra história, não?

Bom, enquanto as ruas se abarrotam, em São Paulo um homem cai no córrego e quase morre ao tentar escapar de um engarrafamento, e eu sumi da face da Internet, aconteceram coisas legais:

– Dia 31 de outubro vi saindo do Largo Glênio Peres, no Centro de Porto Alegre, uma discreta bicicletada com uns dez participantes. Bicicletada como manda o figurino: última sexta-feira do mês, hora do rush. Eu não pude participar, mas fiquei orgulhosa. Talvez nessa sexta-feira se repita o feito. Vou ir trabalhar de bike pra ver se participo da festa;

– Com a inauguração do BarraShoppingSul, que fez alterações na av. Diário de Notícias, na Zona Sul, temos uma nova ciclovia e nossa rede cicloviária simplesmente DOBRADA: de 1,5km, passamos a 3km.

– Tivemos a breve e nobre visita do holandês Jaap Rijnsburger, que veio conhecer o Plano Diretor Cicloviário da capital, passar sua experiência como ex-presidente da União de Ciclistas da Holanda e da Interface for Cycling Expertise e experimentar a ciclovia nova. O que me dá vergonha não é o tamanho da nossa malha cicloviária, mas da impossibilidade de se compartilhar o trânsito com quem ousa não usar um carro. Ele veio a convite do Centro de Transporte Sustentável, aqui de Porto Alegre.

Ciclovia para quem precisa

Afinal, os 18km efetivos do plano diretor cicloviário da capital gaúcha são 17,6 quilômetros, divididos em três diferentes vias a serem concluídas ainda em 2008. É o que o prefeito de Porto Alegre, José Fogaça, anunciou ontem, de acordo com os jornais Zero Hora e Correio do Povo. (Confira o mapa do plano cicloviário, publicado na ZH de hoje)

Serão 7,8km de ciclofaixa nas avenidas Sertório e Assis Brasil, 6,6km de ciclovia na avenida Ipiranga, ao longo da margem do Arroio Dilúvio, entre a PUC e a av. Borges de Medeiros e mais 3,3 km na Av. João Antônio da Silveira, na Restinga. Esses trechos foram considerados pela prefeitura os que mais têm demanda, por já possuirem um considerável movimento de bicicletas. Na Av. Ipiranga, a capacidade é de haver 10 mil viagens diárias.

De acordo com o Correio do Povo, o prefeito externou sua preocupação em relação à continuidade do projeto no caso de mudança de governos, coisa que pode acontecer com as eleições de outubro.

Meus adendos: eleitoreira ou não, a execução dessas ciclovias é necessária, então mãos à obra. Eleito o Fogaça, os ciclistas cobrarão a execução de pelo menos mais uma parte dos 495km capacitados a receber ciclovias. No caso de não o elegermos, lembro a vocês que, sem discutir a capacidade ou competência da candidata Manuela D’Ávila, do PCdoB (cujo slogan de campanha à Câmara Federal foi: “E aí, beleza?”), é ela quem tem se pronunciado em Brasília sobre a questão cicloviária. Cabe tentar saber dos demais candidatos suas propostas para o tema e não votar em quem não inclui-lo em sua campanha, já que é uma necessidade que engloba meio-ambiente, educação e transporte.

Outro adendo vai para um trecho da matéria do Correio do Povo, que diz que: “Ela [ciclovia da Av. Ipiranga] deverá ser construída sobre a grama junto ao Arroio Dilúvio, sem invadir o espaço dos veículos”. Invadir? Bicicletas, motos e pedestres fazem parte do trânsito. Mesmo na ausência de uma ciclovia, as bicicletas têm o direito – e a necessidade – de estar nas ruas e serem respeitadas pelos condutores dos demais veículos, e vice-versa. Na verdade, a invasão está ocorrendo por parte das centenas de novos carros particulares que entram em circulação diariamente e que estão provocando um “enfarto” nas vias públicas, sem mencionar o desrespeito às leis, o estacionamento em locais proibidos e a total ignorância em relação ao pedestre que, sendo uma pessoa humana, deveria ter mais acesso ao espaço público que as máquinas cada vez maiores que ocupam áreas que mal dão conta de seu tamanho.