Semana de reflexão

Arte: Danilo Sales

Fatos distantes um do outro no tempo tiveram sua discussão reaberta essa semana, unidos por vários pontos: o assassinato da ciclista Márcia Prado em janeiro de 2009, na Av. Paulista em São Paulo, e o atropelamento coletivo de 150 ciclistas pelo bancário Ricardo Neis em Porto Alegre, em fevereiro deste ano, e que resultou no indiciamento do atropelador por 17 tentativas de homicídio.

Na segunda-feira aconteceu a audiência com o motorista de ônibus Márcio José de Oliveira e amanhã, no Foro Central de Porto Alegre às 9h30, ocorre a audiência com as testemunhas de defesa do atropelador de ciclistas. Ambos os acusados aguardam julgamento em liberdade, enquanto a Justiça, tanto pela morosidade quanto pelo descaso com a gravidade desses atos criminosos (a falta de prisão preventiva no primeiro caso e a concessão de habeas corpus no segundo), acaba por fomentar o sentimento de impunidade que gerou outros frutos trágicos.  O atropelamento do ciclista Antonio Bertolucci, presidente do conselho da Lorenzetti, o bárbaro atropelamento de Vitor Gurman na Vila Madalena entre outros casos sem punição são exemplos disso, em que motivações sempre reiteradas, como embriaguez ao volante ou excesso de velocidade e desrespeito à faixa de pedestres carecem tanto de fiscalização como de sanções imediatas e adequadas.

Portanto, deve ser dada a devida atenção a um acontecimento como o de amanhã. Centenas de cidadãos – não só cicloativistas – estão se mobilizando para encontrar-se na frente do Foro Central de Porto Alegre e acompanhar, o mais perto possível, o desenrolar do caso de Ricardo Neis e exigir mais ética e justiça, não só dos agentes do Direito mas também de uma mídia que frequentemente compactua com um status quo que faz vistas grossas ao crime, à irresponsabilidade e ao desrespeito ao ser humano.

Anúncios

Pronto, falei

O que vocês achariam se eu dissesse que, em 2010, somente no Brasil, caíram 188 Boeings 737 sem NENHUM sobrevivente? Imaginem o drama das famílias, o caos na aviação civil, o medo de voar. Pois bem: essas 40.610 pessoas morreram sim, mas não em acidentes aéreos. Elas tiveram suas vidas tiradas em “acidentes” de trânsito no Brasil no ano passado.

Por isso só tenho a aplaudir a decisão do STF em transformar em CRIME a prática de dirigir embriagado. E aplaudo também considerarem a possibilidade de fazer criminosos que provocarem incidentes graves (por embriaguez ou infrações comprovadas) ressarcir ao INSS os danos que causarem. Pensem nisso e em todas as infrações cometidas diariamente: as ultrapassagens pela direita, o não-respeito à faixa de pedestres, a cerveja inocente, os 10km/h além do limite da via: são eles, além de absurdos ainda piores, que fazem com que o Brasil apresente números de guerra no trânsito. Responsabilidade por nossos próprios atos salvam vidas.

E, desculpem: mas justificar nossos erros pelos erros de outros motoristas (“todo mundo fura o sinal vermelho, ele não usa capacete, ele não atravessa na faixa”), pedestres e ciclistas é coisa de quem não assume a idade adulta que deveria ter.