Sua pressa não vale uma vida

Título do artigo publicado no jornal Zero Hora de hoje, com minhas impressões sobre a sociedade que estimula crimes de trânsito por meio de autoridades coniventes e publicidade distorcida.

Centenas de ciclistas, reunidos em Porto Alegre para um passeio e manifestação que acontece mensalmente, em nível mundial, tiveram suas vidas ameaçadas por um motorista que não teve a paciência de esperar alguns minutos para que o grupo passasse e acelerou, avançando contra o grupo e atropelando dezenas de pessoas. O acontecimento, como tantas tragédias ocorridas no trânsito brasileiro, abre precedentes para que mais uma vez a sociedade se pergunte: por que a condução criminosa e irresponsável nas ruas brasileiras é tratada com vistas grossas?

Circular de bicicleta não é um direito que se restrinja à existência de uma ciclovia. O trânsito compartilhado é assegurado pelo artigo 58 do Código Brasileiro de Trânsito, mas o que vemos diariamente, na prática, é a legitimização do automóvel como rei absoluto das ruas. Seu uso é justificado pela insatisfação com o transporte coletivo, incentivado pela publicidade – onde, nos comerciais de TV, nenhuma rua é congestionada – e tratado como símbolo de status não só entre a juventude – a velocidade é glorificada na potência e eficiência dos motores. Sinal da mesma imaturidade psicológica que faz com que pessoas não consigam conviver com diferenças e compartilhar espaços e opiniões.

Motoristas que reclamam que um grupo de ciclistas “tranca” a rua não se dá conta de que é o número excessivo de carros que provoca engarrafamentos extensos e, pior, procura justificar a violência gratuita praticada contra quem só quer exercer sua liberdade de locomoção. Uma ciclovia não evitaria o problema. No mesmo dia, no Rio de Janeiro, um carro sem controle invadiu a tradicional ciclovia de Ipanema e feriu três pessoas. O que está errado é o conceito de ir-e-vir ligado exclusivamente ao veículo motorizado e, sobretudo, a negligência no que diz respeito à educação no trânsito. A campanha da faixa de pedestres foi necessária porque há um número expressivo de atropelamentos, resultados de irresponsabilidade, desatenção ao volante e excesso de velocidade. Aos irresponsáveis e criminosos claros, a carteira de habilitação equivale a um porte de arma. Quais são os critérios que elegem esse tipo de pessoas psicologicamente sãs para guiar uma tonelada de metal, elevando o Brasil a uma estatística de guerra em se tratando de mortes no trânsito?

O crime que ocorreu contra os ciclistas que passeavam e promoviam a bicicleta na Cidade Baixa é um sintoma social. Pertence à mesma categoria do ataque a homossexuais na Avenida Paulista, em São Paulo e ao “rodeio das gordas” que humilhou jovens mulheres durante o trote em uma universidade. A diferença – seja de cor ou físico, de orientação sexual ou simplesmente de meio de transporte, causa incômodo em quem se acha em condição dominante e, diante da desatenção do poder público e ao tratamento banal dado por parte da mídia – que vê no crime de trânsito apenas um motivo para a causa de um engarrafamento –, sente-se impune para ameaçar vidas.
Lívia Araújo, jornalista e ciclista urbana.

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Essa é a Violeta

Eu nunca tinha mostrado a Violeta, a senhorita minha bicicleta, solteira, brasileira, e tal.

Ela é a prova cabal de que qualquer mountain-bike pode se transformar em uma city-bike com aparência de original. Não é nem por fetiche, mas pela praticidade. Cestinha para fazer a feira dos sábados. Bagageiro para os cacarecos reaproveitáveis que eu encontro na rua (mas tou a fim de adquirir um alforje), farol a dínamo para a noite, que aí eu não gasto pilhas; e paralamas para não encher minhas costas de lama nos dias de chuva. Acho que uma bike bem equipada, vinda de fábrica, ajuda a incentivar seu uso na cidade. E tira um pouco a impressão de que bicicleta só serve para esporte.